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    Textos simplórios de um espectador perverso. E sem a autocrítica do blogueiro, não vale! (Visualizem essa budega pelo Firefox; ele não é amigo do Explorer)

Leblon, Batman, Cinema

Ver filmes no Leblon é outra coisa.

Só existem dois cinemas comparáveis a ele. O Odeon, que inevitavelmente ganhou um ar de “cinema velho e grande, portanto chique“, e o Palácio, que costuma ser bem vazio, com o agravante de ser longe de casa. O Leblon, ao contrário, não fica se exibindo (ao contrário do bairro…): ele deve caber 700 pessoas, e nem por isso fica tendo eventozinho cult, nem por isso é visto como “patrimônio cultural”; ele é mais-um-cinema. O público vai lá porque é perto de suas casas, e nada além disso. Existe um certo desdém pelo Leblon, como se ele não fosse único, o que o torna exatamente isso, único.

Você simplesmente sai de casa, dá uma andada, então decide pegar uma sessão por encontro de horários. É Sábado à noite, estréia de Batman, e o cinema está LO-TA-DO. Isso mesmo, tem 700 pagantes, todos reunidos no mesmo fenônemo social. Tem a pirraça e sacanagem da Maratona do Odeon, só que mais natural e espontânea, como conseqüência somente da ingenuidade da pré-adolescência; tem o charme do “popular” como o Palácio, mas justamente em uma área que se diz preferir o shopping e as lojas de grife.

Ok, aí você ENTRA na sala, e é aquela coisa maravilhosa (justiça feita: isso obrigatoriamente também acontece no Palácio e no Odeon), todo aquele comprimento, a distância enorme necessária para se percorrer até a proximidade da tela, e a tela lá no fundo, mas grande o suficiente para amendrontar qualquer um de nós. A sala já está razoavelmente cheia, e você vai descendo, descendo, passando pelas cadeiras, até chegar na posição que todo cinéfilo deve ocupar. Mas no Leblon, você não senta na primeira fileira, nem mesmo na segunda. Existe um respeito com aquilo ali, tem que haver um mínimo de distância maior — e afinal a projeção seria em cinemascope. Escolhe a terceira fila, e mesmo depois de sentado não se acalma. Os múrmurios, a multidão que não pára nunca de chegar, a promessa de uma sessão que vai ter muita gritaria a ponto de incomodar, a inquietação dos espectadores em ter que escolher a própria cadeira para se sentar (e elas estão se escasseando!), afinal o Leblon não aderiu a frescura da cadeira marcada. Antes dos trailers, até as fileiras na sua frente precisaram ser ocupadas. E quando forem apagadas as luzes, claro, o “inconsciente coletivo” se transformará em energia do ar, a rampa parece se solidificar; surgem os medos e as ansiedades.

Antes de começar o filme, já sabia ter feito a escolha certa. Não importa que havia muitas outras pendências em cartaz, de diretores que eram facilmente mais atraentes que Christopher Nolan: essa exigência de atualização e a cautela com o cineasta não podiam me parecer mais supérfluas. Trata-se de Batman, este que é o tal Cavaleiro das Trevas, logo nada menos que o herói ontológico desta arte de fascínio natural pela noite, coisa que só poderia ser vista naquelas condições, caso contrário a obra estaria fadada a incompreensão. Quando eu digo “naquelas condições”, estou falando do Leblon, este bairro elitista e cheio de cri-cri, e do Leblon, aquele cinema que tem sistema de som mais poderoso que qualquer HMX (e é óbvio que o Leblon não é nem quer ser HMX).

Batman é um filme do Christopher Nolan, como também um filme dos engenheiros de som, do compositor da trilha sonora, do montador. Já que o diretor não sabe muito como tornar as cenas tensas, ou não acredita no próprio talento de criá-las, ou ele acha que a concepção de tensão significa “acúmulo grotesco e virtuoso de efeitos sonoros”, ele apela para seus amigos da banda sonora, co-autores do espetáculo, retribuição que o Leblon agradece com volúpia. A bexiga também, já que este é um típico filme que realmente dá vontade de mijar. E os espectadores também, porque eles nem sabem qual é diferença entre imagem e som, conservando uma magia antiga de quando esse tudo-do-filme surgia de um mesmo local incerto, desimportante e abstrato. Como filme do montador, há o sufoco “do fluxo”. O importante é ter AÇÃO sendo filmada, e ele realmente consegue um ritmo ótimo, típica avalanche de imagens descuidadas, mas sempre em progressão contínua e assegurada (o que é bem diferente de todos outros filmes do cara).

O melhor plano do filme é o primeiro. Câmera em helicóptero, travelling-in para um edifício com inúmeras janelas idênticas, todos revestidas com vidro fumê. É dia — claro, ainda estamos acordando e arregalando os olhos para a tela. A aproximação chega ao máximo, evitando a colisão, mas pressionando a janela para revelar o que esconde dentro dela, convocando a imagem desta janela à metáfora de uma atmosfera social, do anonimato do indivíduo, da coletivização das pessoas, do possível campo insuspeito que constrói uma verdadeira ameaça. Ao longo do filme, só se estará falando desta janela. De lá, saem coringas, no plural — e é por esse plural que temos a certeza que os signos já foram tão utilizados a ponto de serem coletivizados. Uns minutos depois, para o nosso maior espanto, vários batmans, e portando armas de fogo. Mas, se existe o travelling-in no plano inicial, é porque, de todas aquelas janelas, queremos chegar a uma unidade, a exaltação desta unidade, a demarcação desta unidade.

Assim, culminamos no final, que é certamente o pior: se no primeiro plano, havia esta frontalidade, esta coisa de chamar-para-a-briga, a conclusão é a covardia da narração em off, as imagens de um herói fugindo, de costas, com os olhos em um horizonte que não é mais o nosso — a conclusão quer ser o espetáculo mesmo sem efeitos sonoros, mesmo sendo somente texto e imagem fugidia!

O Leblon, porém, é forte, e agüenta tudo isso. O corte brusco com que Nolan encerra para a entrada do título é mais brusco e mais inesperado no Leblon. É também seguido de palmas, e a partir daí, a trilha sonora dos créditos pouco importa. E, nesta procissão que é a caminhada em multidão para a saída (e para o banheiro!), escuta-se insólitas opiniões alheias ou se tem um surto autístico como bom cine-filho, o que for preciso para se preservar ainda o gostinho da sessão, antes que ela se dissipe pelo ar na volta, de novo à pé, para a casa…

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