O festival foi estranho.
Essa é a última chatura minha. O festival teve tantos filmes bons que chegou a ser estranho. E não vi — simplesmente não vi — nenhuma bomba, bomba mesmo, das brabas. Ou fui eu que estou estranho a mim mesmo, já que parece que estou numa nova mudança de gosto, a mesma sensação que senti festival passado. Mas, ao contrário de 2006, fiquei sozinho nas minhas preferências. Quem mais curtiu Smiley face? Quem não acha Maldição da flor dourada tão ruim assim? Deve ser por isso que eu não vi bombas. Ou simplesmente, não tive saco de enfrentá-las. Desisti de ver Paprika e Hana. Saí no meio de O antigo jardim (que pode até ser bom, mas eu tava viajando MUITO durante a projeção). Shortbus é bem fraco, mas é fácil de ser digerido, não é do nível absolutamente insuportável como Fonte da vida e Container do ano passado.
O festival teve muitos filmes bons, tanto que eles acabam nem se sobressaindo tanto quanto foram Bamako, Exilados, Um casal perfeito. E ainda cometi o insulto que foi rever Síndromes e um século e Mulher na praia depois de já ter visto na minha tv (e a primeira experiência, esse primeiro contato com um objeto desconhecido, foi, pra mim, melhor). Não que Síndromes deixe de ser obra-prima e Mulher, ótimo… mas, sabe?
O que me sobra são discordâncias com meio-mundo, um novo olhar que duvido ou reprimo (é curioso como em Não toque no machado eu já tava de saco cheio da tal MISE EN SCÈNE — caps lock por favor) e o prazer das experiências que acabam se confundindo e me escapando.
Mas não é menos sintomático um detalhe: só comi um único podrão o festival inteiro. Sacrilégio! Fiquei todo fresquinho. Como se não bastasse o repudio aviadado aos filmes ruins do festival.
No final, no último dia, um último filme (Papel não embrulha brasas), ainda cedo, às 14h45, e mais nada. Um ponto final que mais pareceu reticências. Tanto que fiquei no Bem estar depois, já à noite, e quase fui rever o Ferrara. Uma coisa meio Lost in translation mesmo. Não tava muito a fim de abandonar aquilo.
De todo modo, tem ainda a repescagem, que está bem legal, principalmente pra quem perdeu filmes importantes no festival. Talvez reveja hoje a Kawase pra tentar entender o porquê de tantos elogios. Talvez encare O antigo jardim, já que efetivamente não vi nada do filme. E, se bobear, pego o Lumet e o Ang Lee. Que estréia, estréia, mas agora é 6,50 e… no Odeon.
E, pra fechar esse papo furado, a minha ordem dos filmes vistos, desde a cabine, no festival, excluindo filmes de vários episódeos e os antigos. Discordem à vontade…
1) Síndromes e um século (2006), de Apichatpong Weerasethakul
2) Paranoid park (2007), de Gus Van Sant
3) As testemunhas (2007), de André Téchiné
4) Jogo de cena (2007), de Eduardo Coutinho
5) Lady Chattlerley (2006), de Pascale Ferran
6) Cristóvão Colombo – o enigma (2007), de Manoel de Oliveira
7) Sempre bela (2006), de Manoel de Oliveira
8) Mulher na praia (2006), de Hong Sang-soo
9) Silenciosa luz (2007), de Carlos Reygadas
10) Go go tales (2007), de Abel Ferrara
11) Uma velha amante (2007), de Catherine Breillat
12) Uma moça dividida em dois (2007), de Claude Chabrol
13) Não toque no machado (2007), de Jacques Rivette
14) Floresta dos lamentos (2007), de Naomi Kawase
15) 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), de Cristian Mungiu
16) Papel não embrulha brasas (2007), de Rithy Pahn
17) I’m not there (2007), de Todd Haynes
18) De volta à Normandia (2007), de Nicolas Philibert
19) Smiley face (2007), de Gregg Akari
20) Antiga alegria (2006), de Kelly Reichardt
21) O nome dela é Sabine (2007), de Sandrine Bonnaire
22) Eu não quero dormir sozinho (2006), de Tsai Ming-liang
23) Em Paris (2006), de Christophe Honoré
24) Maldição da flor dourada (2006), de Zhang Yimou
25) Temporada de seca (2006), de Mahamat-Saleh Haroun
26) Luxury car (2006), de Wang Chao
27) Daqui pra frente (2007), de Catarina Ruivo
28) O antigo jardim (2006), de Im Sang-soo
29) Shortbus (2006), de John Cameron Mitchell
Só Shortbus – e talvez O antigo jardim — é muito fraco. Do 25 ao 27, são fracos, mas não sem um desinteresse total (e estão na verdade empatados, não sei dizer bem certo qual é o melhor). Do 22 ao 24 são fraquinhos. Do 17 ao 21 estão entre o legalzinho e o mediano. Do 12 ao 16, são bons filmes, enfaticamente recomendados, ainda que tenham alguns problemas (estão virtualmente empatados também, tirando o Chabrol que é claramente o melhor destes). Do 5 ao 11, são ótimos. Do 2 ao 4, são fodaços. E Síndromes, bem, é Síndromes.
Bom, só reiterando que eu vi 40 minutos de O antigo jardim, e os vi com a cabeça em Plutão e que Em Paris eu dormi na maior parte do tempo, mas o que eu vi, não gostei. Não cheguei a ver nenhum filme desatento a ponto de perder muito da história, mas Go go tales eu vi com a cabeça bastante cansada, sem vontade de pensar. A ser revisto, definitivamente. Tem mais alguns filmes a rever, além desses 3, só que por motivos de confirmação da minha opinião frente ao resto do MUNDO. Estes seriam As testemunhas, Floresta dos lamentos e 4 meses etc. Além disso, seria bom rever Sempre bela após ver A bela da tarde e Silenciosa luz é complexo e problemático demais para só se ver uma vez.
No mais, também fui na sessão de A idade da Terra, que dormi sem parar. Vi Tabu, que é bom, mas eu tenho dificuldade imensa de admirar filmes silenciosos. A cada um seu cinema tem no máximo 5 episódeos ok, o resto é pra jogar no lixo mesmo. E O estado do mundo tem 3 episódeos que facilmente entrariam junto com os 12 primeiros colocados da lista.
Arquivado em: festival do rio
uma coisa é certíssima. Agora que Mulher na praia não sai mesmo do oitavo lugar.
é o espírito do filme mesmo…